A humanização do animal: como encontrar o equilíbrio
Rita Vasconcelos, adestradora do Cão Cidadão, especializado em adestramento e comportamento animal, comenta as particularidades e até onde pode ir a humanização do seu pet.
Animais de estimação são amados e fazem parte da família. Alguns tutores tratam os animais como se fossem filhos, adotam rotina de compromissos com o cachorro como se ele fosse gente.
Perguntamos à Rita até que ponto este tratamento é benéfico para o cachorro e por que o tutor age desta forma.
O pet é visto, cada vez mais, como um membro da família, que participa das suas rotinas, companhia para pessoas que moram sozinhas, idosos, por exemplo, ou em substituição aos filhos, por motivos diversos, e então é oferecida uma vida, dentro de casa, como se fossem as crianças do lar.
Os animais podem aumentar a auto-estima, capacidade de socialização e a responsabilidade e isso é benéfico para as pessoas. Em busca desse apoio emocional, eles são tratados como um membro da família e não é errado tratar seu animal de estimação dessa forma. Muitos estudos já comprovaram que a convivência com cães e gatos ajudam a tratar diversas doenças, tais como: ansiedade, estresse, depressão e até doenças cardiovasculares.
Muitas vezes são tratados como bebês, usam roupinhas, têm festas de aniversários e até casamento. Para falar com eles são usados termos fofinhos e carinhosos e o laço de afetividade cresce bastante, o que na verdade, não é um ruim para nenhuma das partes, desde que se tenha um equilíbrio e se consiga entender as reais necessidades do animal.
Por um lado é bonitinho ver seu animalzinho em fotos e vídeos, fazendo coisas humanas, porém por outro é preocupante, porque se não existir uma moderação, o pet perderá sua identidade.
Ultimamente, o número de animais domésticos tem crescido, principalmente cães e gatos, desta forma, precisamos fazer com que a nossa relação com eles não seja prejudicial, assim eles poderão manter sua essência e a sua independência garantida.
Os cachorros são submetidos a looks exóticos, acessórios cheios de detalhe, sapatinhos e roupas nem sempre confortáveis. Então, saem para desfilar pelas ruas. Rita Vasconcelos esclarece como o cachorro se sente vestido desta forma.
Atualmente, no mercado pet, existem muitos produtos que induzem a humanização de nossos animais de estimação, dentre eles temos diversos acessórios, roupinhas, carrinhos para passeio, bolsas, artigos para festa de aniversário, e até procedimentos estéticos, como se fossem humanos. E, analisando esses itens, os animais de estimação viveriam muito bem sem o uso deles e eles também não acrescentam benefícios ao bem-estar do animal.
Tem tutores que usam fraldas nos animais, ou sapatinho para passear para evitar sujeira pela casa. Esse comportamento pode ser prejudicial, porque o animal precisa gastar energia e se sentir confortável para fazer suas necessidades fisiológicas e andar de forma natural em qualquer ambiente.
Para os pets é uma responsabilidade enorme ter que corresponder às expectativas dos humanos, porque eles sentem as nossas emoções, mas não estão aptos a responder como humanos. Muitas vezes o tutor vê no seu pet um amigo, um psicólogo ou mesmo um filho.
Muitos animaizinhos toleram o uso desses apetrechos, mas muitos se sentem desconfortáveis. Nessa hora que é preciso avaliar se este comportamento está incomodando o pet e eliminar o uso para que eles sintam que está tudo bem.
Roupinhas para aquecer o animalzinho podem ser usadas, porém, devemos ter o mesmo critério de observação para verificar se o animal está se sentindo incomodado ou não.
Rita Vasconcelos explica como a humanização afeta a vida do cachorro
Se a humanização dos pets for feita sem um controle e o animal se sentir desconfortável podem apresentar alterações no comportamento, tais como: transtornos alimentares, aumento de insegurança, ansiedade e estresse, medo e fobias, agressividade e latidos em maior escala, mudança de conduta dentro e fora de casa, fazer as necessidades fisiológicas em lugar inapropriado, destruição de objetos, dificuldade de socialização com outros pets e humanos.
Um dos primeiros reflexos da humanização normalmente é o sedentarismo do pet e, assim, um aumento de peso, trazendo doenças relativas à obesidade.
Rita comenta o comportamento de tutores e o uso do bem-senso como solução para um convívio harmonioso.
Também podem ser gerados alguns problemas comportamentais na pessoa que pratica a humanização do seu animal de estimação, dentre eles :
O humano cria uma relação de dependência, acreditando que seu pet não vive sem a sua presença;
Pode ocorrer o aumento do isolamento social, pois os nossos pets passam a ocupar o lugar que poderia ser preenchido por uma outra pessoa;
A pessoa começa a projetar expectativas que não existem.
Essa humanização deve ser moderada, pois a saúde deve vir sempre em primeiro lugar, e deve ser feita, pelo menos, de uma forma mais consciente e menos invasiva, do contrário, pode fazer mal tanto ao pet, quanto ao tutor e a quem convive com animal.
Pets gostam de vida com rotina, então é necessário dar atividades de socialização, passeios e brincadeiras para que eles se sintam mais confiantes. É importante também, não privar o animal do seu instinto natural.
Precisamos diferenciar as emoções dos pets com a dos humanos, para não esperar atitudes que o pet não corresponderá.
Devemos dar muito amor e carinho, mas é necessário ensinar ao pet a ser mais independente e seguro para que, por exemplo, o pet consiga ficar sozinho em casa, sem ansiedade de separação.
Para finalizar, o uso do bom senso é essencial na hora de praticar a humanização nos animais de estimação. O mais importante é todo mundo se sentir bem e feliz!
Nossos agradecimentos à Rita Vasconcelos, adestradora, e à Marina Bastos, psicóloga e adestradora do Cão Cidadão, @caocidadao
Fotos: Rita Vasconcelos, Cão Cidadão
